Escrito por Fabiane Lenharo Sex, 27 de Janeiro de 2012 15:57

Quem passa pelo local leva um choque. Onde existia capela, estrutura de festa com barracão e cozinha, escola e campo de bocha, hoje se resume a um amontoado de escombros. Se para quem só ia lá de vez em quando, a cena é triste, imagine para os moradores que viveram os tempos áureos do Bairro do Pocinho?
É o caso do aposentado Clarindo Moço e do produtor rural Claudionor Storion, que contaram ao Candeia como acompanharam a decadência de um dos mais tradicionais pontos de cultura regional e de vivência religiosa de Bariri.
É bom destacar que economicamente o Bairro Pocinho, com suas terras férteis, continua a exercer papel importante na produção agrícola do município.
O local – a cerca de 6 km da cidade - abrigava a capela construída em louvor ao padroeiro do bairro: São Luiz Gonzaga do Pocinho. Os encontros eram mensais. Primeiro o terço e depois quando o padre chegava, a celebração eucarística.
Havia também a festa anual realizada em agosto, em homenagem ao padroeiro, com missa solene, seguida de procissão. Logo, a programação ganhou uma quermesse e, em torno da capela, foi surgindo uma estrutura de festa, com barracão e cozinha. O cardápio tinha salgados, assados e a especialidade da casa: frango com polenta.
Em frente, atravessando a estrada rural, havia a escola rural e a o campo de bocha, ponto de encontro dos moradores, em especial no domingo e feriados.
A área foi doada há mais de 150 anos por Lino Pereira, mas a situação nunca foi legalizada. Hoje ela integra as terras de propriedade de Paulo Storion. Pelo menos cinco gerações das tradicionais famílias de descendência italiana do bairro se formaram em torno do local.
Clarindo e Claudionor afirmam que aos poucos, tudo foi acabando. Primeiro a escola foi desativada e, depois, demolida. O campo de bocha ainda existe, mas de forma precária. Há muito tempo não reúne mais ninguém e hoje está todo arrebentado.
Os moradores mais jovens passaram a sair em busca de estudo e profissão. Muitas famílias vieram residir na cidade. Como consequência, as quermesses se escassearam; o barracão e a cozinha perderam a utilidade e as festas do padroeiro acabaram.
Clarindo lembra com emoção do último evento realizado lá. Foi há cinco anos, quando, mesmo com precariedade, organizaram um almoço beneficente, de polenta com frango, em prol da Santa Casa de Bariri.
Os dois afirmam que, nos últimos tempos, o único vínculo que permanecia em pé era a capela, mesmo que sem a regularidade de antes. Pertencente à Paróquia de Santa Luzia, a comunidade recebia – cada vez mais raramente – a presença do pároco. Aos poucos, nem isso. A explicação: para o padre não havia necessidade de celebrações específicas na capela, uma vez que a ‘clientela’ era a mesma da Igreja de Santa Luzia.
Mesmo assim, não faz muito tempo, os moradores, com a ajuda da prefeitura, conseguiram recursos para uma boa reforma. Bancos, imagens e tudo que diz respeito à capela, sempre foram muito bem cuidados pela comunidade.
Por isso, o incêndio que a destruiu há cerca de um mês teve efeito devastador nos moradores que ainda nutriam a esperança de ver o local voltar a congregar a comunidade.
Claudionor conta que a capela vinha sofrendo depredação gradual. Primeiro roubaram o sino, depois o transformador. Cerca de uma semana antes do incêndio, tentaram entrar, mas não conseguiram arrombar a grande porta de ferro de correr. Por ironia, foi bom ela estar enferrujada.
Por precaução, os moradores retiraram os santos e objetos de mais valor. Não deu outra. Tanto tentaram que vândalos conseguiram entrar e botar fogo no local. A própria polícia técnica acredita que o incêndio foi criminoso, uma vez que curto circuito está descartado, já que não havia energia elétrica no local.
Quando o carro pipa da DC Bio chegou, pouco havia para se fazer. Os 28 bancos de madeira maciça, as cortinas, quadros, telhado e paredes foram destruídos pela ação do fogo. Para evitar riscos maiores, o que sobrou foi posto ao chão.
A desolação dos dois entrevistados pelo Candeia é evidente. A capela no chão para eles é o fim de uma grande era de vivência comunitária do bairro, que agora fica praticamente impossível de resgatar. “Não vamos apontar culpados, só lamentar”, resume Claudionor.
Fonte: Jornal Candeia - Rosana Acçolini